Cleber Wender
← Voltar aos artigos
Reflexão · Marcos 10.35–45

O chamado para as coisas pequenas

Recentemente passei por um processo de reflexão no qual pensei muito sobre o fazer coisas pequenas.

Creio que, em algum momento, quase todos aqueles que se envolvem no ministério pastoral alimentam o desejo de fazer coisas grandes e expressivas. Escrever livros, tornar-se referência em determinado assunto dentro de sua denominação ou cidade, ser um pastor reconhecido em seu meio, pregar em conferências ou até mesmo “cair nas graças” do meio evangélico.

Mas… e se talvez não seja isso para o que Deus nos chamou?

E se, ao invés disso, Deus tiver nos chamado para pastorear fielmente um pequeno grupo de pessoas? E se talvez nunca sejamos amplamente reconhecidos em nosso meio? E se nunca escrevermos livros que se tornem best-sellers?

Considero importante refletirmos sobre essas coisas porque, cedo ou tarde, passaremos por momentos em que nos sentiremos frustrados por não alcançar os objetivos que imaginávamos para nós mesmos.

Ainda sou jovem. Na data em que escrevo este artigo, estou prestes a completar 32 anos. Apesar disso, já tenho 10 anos de ministério pastoral. Comecei muito cedo — e hoje reconheço que talvez isso não tenha sido tão bom quanto imaginei.

Tudo em minha vida aconteceu de forma muito precoce. Humanamente falando, ainda tenho bastante tempo pela frente. Mas e aqueles colegas de ministério que já estão com a idade mais avançada e, por algum motivo, nunca pararam para refletir sobre essas coisas?

Quantos deles talvez carreguem silenciosamente a frustração de nunca terem se tornado aquilo que imaginaram para si mesmos?

Decidi escrever sobre isso porque percebi que, enquanto escrevo, também vou aprofundando meu entendimento sobre essas coisas. Vou lidando com minhas próprias frustrações e organizando pensamentos que, por vezes, ainda são difíceis para mim. E quem sabe este texto também possa ajudar você a compreender e lidar com isso.

O ministério e nossa busca por reconhecimento

Ninguém diria isso publicamente. Nenhum pastor afirmaria abertamente que usa o ministério como um projeto de ascensão pessoal. Ainda assim, tenho a impressão de que, muitas vezes, é exatamente isso que acontece em nosso coração.

Já que não somos empresários, jogadores de futebol ou figuras reconhecidas em outras áreas, buscamos ascender dentro do próprio ministério.

Deixe-me explicar melhor.

O ministério pastoral não pode ser reduzido a uma profissão comum. Há diferenças profundas entre o pastorado e qualquer outra ocupação humana. Afinal, estamos falando de um chamado espiritual, de serviço ao Senhor e de cuidado com pessoas.

Ainda assim, para fins didáticos, vamos momentaneamente tratar o pastorado como uma profissão.

E aqui surge uma pergunta importante: qual é a principal semelhança entre a profissão pastoral e qualquer outra profissão?

A resposta é simples: todas elas são exercidas por pessoas.

E, sendo assim, estamos falando sobre coração.

Jeremias 17:9 afirma que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto”. Algumas traduções utilizam a palavra “corrupto”, e creio que é exatamente aqui que está o grande X da questão.

O mesmo desejo que leva um empresário a querer ser grande, reconhecido e relevante também pode habitar silenciosamente no coração de um pastor.

Porque, no fim, apesar das enormes diferenças entre o ministério pastoral e outras ocupações, todos nós continuamos sendo homens lidando com um coração pecador.

Vemos um exemplo claro disso registrado em Evangelho de Marcos 10:35-45. Nesse texto, dois dos discípulos de Jesus pedem para se assentarem um à sua direita e outro à sua esquerda.

Para nós, esse pedido pode parecer simples à primeira vista. Porém, no contexto do Novo Testamento, ele carregava um significado profundo. Assentar-se à direita e à esquerda de alguém era ocupar posições de honra, prestígio e autoridade.

Em outras palavras, aqueles discípulos também desejavam grandeza.

De certa forma, era como se buscassem uma espécie de “sucesso ministerial” no Reino. Como se quisessem ocupar posições elevadas por terem sido excelentes discípulos.

E existe um detalhe muito interessante nesse episódio: nos versos anteriores, Jesus havia acabado de falar sobre sua morte. Falou sobre sofrimento, entrega e sacrifício. Falou sobre o grande ato que realizaria ao entregar sua vida pelos pecados do seu povo.

Mas, enquanto Jesus falava sobre cruz, os discípulos ainda pensavam em posições.

É exatamente após esse pedido que Jesus redefine o conceito de grandeza. Ele mostra que, em seu Reino, ser grande não significa ocupar os lugares mais altos, mas servir. Significa doar-se. E toda verdadeira doação cobra um preço — muitas vezes altíssimo.

O problema é que, por vezes, não usamos o referencial de grandeza de Jesus. Usamos o referencial humano. E é exatamente aí que entramos em conflito.

Talvez seja exatamente nesse ponto que eu esteja neste momento. E quem sabe você também esteja.

Talvez estejamos carregando uma visão distorcida sobre sucesso ministerial. Talvez nossa aflição, nosso desânimo e nossa constante frustração estejam ligados ao desejo de fazer coisas aparentemente grandes.

Porque, no fundo, talvez consideremos grandes apenas aquelas coisas nas quais somos reconhecidos, valorizados e vistos. Talvez, sem perceber, ainda desejemos estar assentados à direita e à esquerda.

É… acredito que esse seja um dos meus maiores problemas atualmente.

Eu quero estar assentado à direita e à esquerda.

Mas preciso me lembrar — e talvez você também precise — que isso não é a verdadeira grandeza.

Isso não é sucesso.

Sucesso é fazer exatamente aquilo que Deus nos chamou para fazer.

Agora chego ao ponto em que olho para mim mesmo e para aquilo que Deus colocou em minhas mãos.

Hoje pastoreio uma igreja em processo de plantação. Pastoreio cerca de cinco pessoas. E, quando olho apenas para os números, muitas vezes tendo a desanimar e pensar que as coisas não estão dando certo.

Mas quando olho para cada indivíduo, vejo algo maravilhoso.

Um veio de uma seita e está aprendendo sobre o verdadeiro evangelho. Outro estava desacreditado da igreja. Outro havia se desviado e voltou para os caminhos do Senhor.

E definitivamente, esse “pequeno” é algo grandioso.

Porque tudo isso que relatei é obra de Deus. E Deus sempre faz coisas grandes.

Talvez o problema esteja justamente em nossa definição de grandeza.

Soli Deo Gloria.

Deixe seu comentário

Compartilhe sua reflexão. Basta informar seu nome; não é necessário criar uma conta. Seu comentário será publicado após aprovação.

Comentários